Aloha! Irmãos do (surfe de) peito. É um enorme prazer estar aqui marcando a presença do nosso esporte. Desde a minha infância, eu brincava no mar. Fui criado em Copacabana e quando pequeno, já pegava umas ondas, apostando com um amigo para ver quem chegava na beira antes do outro. A esse divertimento chamávamos de "jacaré". Mas com o tempo essa brincadeira ficou bem chata, até que comecei a observar os guarda-vidas brincando nas ondas de uma forma diferente. Eles dropavam com um dos braços esticados, mas o tamanho das ondas me dava medo, e foi então que saía do mar para admirar a sua coragem. Foi aí que percebi outros banhistas, uns com pranchas grandes e outros apenas com as nadadeiras. Eu vibrava a cada onda surfada. Já não queria mais brincar de "corrida de chapinhas", nem de fazer castelos de areia, queria aprender como aqueles homens faziam aquilo. Pegava uma onda todo torto e não sabia bem para quê um braço esticado, até que dei com a minha cara na areia e fiquei um bom tempo sem tentar de novo. Fui advertido por meu pai para que aprendesse primeiro a nadar. Entrei na escolinha de natação do Clube Botafogo. Meses depois, num domingo ensolarado, tentei de novo. Lembro-me que dropei e senti algo diferente. A onda me puxou, como uma mão me encobrindo e entrei num cilindro líquido que rodava, mas tudo ao redor era água! Fantástico! Percebi também que o barulho dos banhistas estava abafado. Fiquei tão perplexo com aquela experiência que não soube o que fazer. Segundos depois, caí e usei as minhas mãos para não me machucar mais. Saí do mar feliz e nunca mais parei de surfar. Caros leitores, é assim que o surfe nasceu, intuitivamente. Antes, não havia guarda-vidas, mas golfinhos, tubarões e pássaros ávidos por uma presa ou mesmo por diversão. O surfe de peito é produto da observação e respeito do homem primitivo a esses animais. Para Mike Stewart, (nove vezes campeão do Pipeline Bodysurfing Classic) "os tubarões são exímios surfistas de peito". E não é à toa, pois o povo havaiano sempre venerou essa espécie no seu panteão. Já o Capitão inglês Sir James Cook (1728-1779), ao longo de suas viagens, pode aprender com os nativos a prática dessas "brincadeiras". Desde a Nova Zelândia, entre os Maoris, das ilhas da Polinésia até o arquipélago havaiano, o capitão foi visto surfando de peito. Um dos mais importantes relatos fora feito em sua incursão nas ilhas do Havaí (1778), descrito que o capitão várias vezes era visto "nadando na arrebentação". É o primeiro documento de um homem surfando de peito. Em outro trecho, descreviam os nativos "brincando nas ondas (...) homens nadando como golfinhos". Outro dado importante é que somente as altas classes havaianas tinham direito de surfar nas pranchas, feitas a partir de madeiras sagradas e que os demais nativos surfavam sem pranchas. Portanto, desde muito tempo, o surfe de peito é um esporte popular. Somente no século XX, com a intensidade da exploração inglesa e a perseguição protestante contra os rituais havaianos, é que se pode ver alguns "watermen", surfando sobre pranchas, resgatando as antigas práticas, mesmo que proibidas. O surfe de peito é considerado hoje como "Pré-surfe",
ou seja, é a base de todo o esporte sobre as ondas. Não
importa o estilo de surfe, todo o praticante deve saber pegar de peito
para saber entrar e sair do mar. Faz parte do treino de grandes surfistas
que desejam melhorar a sua força de explosão ou sua condição
cardio-vascular. Mas isso é papo para semana que vem. Kleiber Fragoso |